Estudos de gênero, trajetórias de mulheres e história das ciências no Brasil

Mulheres cientistas no Museu Nacional 1926

Reunião GEICT – 25 de maio de 2017

Apresentação do trabalho de pesquisa da Dra. Mariana M. O. Sombrio:

Estudos de gênero, trajetórias de mulheres e história das ciências no Brasil.

Pensar a história das mulheres nas ciências e as formas como as relações entre homens e mulheres, masculino e feminino, influenciam e influenciaram o desenvolvimento das instituições científicas vem consolidando um campo importante de estudos nas últimas décadas.

As perspectivas se abriram para estudos em campos diversos, sociologia, antropologia, filosofia das ciências, biologia, história, entre outras possibilidades. Nesse quadro, os estudos historiográficos cumprem um importante papel ao promover representatividade, questionar lugares de participação e conceitos marcados por estereótipos sociais, reverter o quadro de desconhecimento em relação às experiências de mulheres e sua atuação em práticas e instituições científicas. As funções pré-determinadas a cada gênero e as representações desses papéis são e foram mais flexíveis do que a historiografia tradicional das ciências nos permitiu conhecer. Nos últimos 30 ou 40 anos, diversas pesquisadoras e pesquisadores empreenderam esforços em recuperar e divulgar histórias, compreender condições, fatores e estratégias em que mulheres de diversas origens se apoiaram para ocupar espaços em instituições científicas.

Em minha tese de doutorado,[1] abordei trajetórias de mulheres, principalmente estrangeiras, que realizaram expedições científicas no Brasil em meados do século XX. A pesquisa tornou-se possível a partir da documentação do Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas do Brasil – CFE (1933-1968), arquivada no Museu de Astronomia e Ciências Afins – MAST, Rio de Janeiro, onde estão guardados dossiês sobre expedições científicas estrangeiras e de pesquisadores brasileiros autônomos que precisavam da autorização do órgão para adentrar o território e realizar pesquisas científicas.

No decorrer do século XX, no Brasil, a ciência passou por um forte processo de institucionalização, assim como ocorria também em âmbito internacional, e muitas instituições, disciplinas e práticas científicas surgiram ou foram re-significadas. A história social das ciências é composta por inúmeras trajetórias de pessoas que dedicaram sua vida profissional à pesquisa e à produção de conhecimento, mas as mulheres ainda ocupam uma posição marginal neste quadro.

Sobre as mulheres estudadas em minha pesquisa, expedicionárias que viajaram pelo Brasil entre as décadas de 1930 e 1950 e tiveram seus nomes registrados pelo Conselho de Fiscalização de Expedições – CFE, é possível dizer que muitas conviveram em ambientes ainda majoritariamente masculinos, mas desenvolvendo pesquisas próprias e participando de comunidades científicas, estabelecendo relações de trabalho, integrando instituições e produzindo ciências. Eram minoria nos registros do CFE, mas estavam presentes, e o aprofundamento do estudo de suas trajetórias demonstra que iam muito além do papel de assistentes ou esposas, que muitas vezes era o que se esperava delas (Corrêa, 2003).

Sobre a profissionalização de mulheres, é comum encontrar grupos que surgiram como prolongamento de funções supostamente “naturais”, maternais e domésticas – “o modelo de mulher que auxilia […] cuida e consola, realiza-se nas profissões de enfermeira, assistente social ou professora primária” (Perrot, 2005: 252) – por exemplo. Como contraponto, esta pesquisa buscou elucidar experiências daquelas que não se enquadravam nesse perfil predominante e, com êxito, foi possível identificar um grupo formado por etnólogas, em sua maioria, mas também botânicas, zoólogas, geólogas, astrônomas, linguistas, arqueólogas, todas atuando em pesquisas de campo no Brasil na primeira metade do século XX.

Escrever sobre a história de mulheres nas ciências tornou-se uma estratégia importante para discutirmos os problemas da participação feminina em instituições científicas até os dias de hoje. O não pertencimento do feminino à história das ciências é também fruto de um discurso que promove a ausência das mulheres nesses espaços ao não abordar as formas de participação a que elas tiveram acesso ou foram submetidas. A problemática de gênero nas ciências vai além do ambiente das instituições ou do campo e inclui questões de família, casamento, profissionalização e condições econômicas, porque tudo isso permeia a trajetória dos cientistas e é principalmente aí que se difere a presença de homens e mulheres nas ciências. O papel social historicamente atribuído a cada gênero e a divisão sexual do trabalho influenciaram profundamente a forma como essas instituições se desenvolveram.

As ciências se institucionalizaram sendo um local de maior presença masculina, porém, ao olharmos os acervos documentais de diversas instituições científicas do início do século XX é possível encontrar a presença feminina. A própria historiografia contribuiu com a invisibilidade das mulheres na história das ciências ao não relatar a forma como essas personagens se inseriram em diversos campos e práticas científicas, como a pesquisa documental tem sido capaz de revelar.

Não narrar as experiências de algo ou alguém “é um mecanismo eficaz de instituí-los, metaforicamente, como mortos (…)”, pois “a memória se constrói no jogo entre lembranças e esquecimentos e, no plano dos agentes, no embate entre o que é lembrado e o que é esquecido, entre o narrado e o inenarrável (…)”. São embates políticos que permeiam a constituição das narrativas e direcionam a lembrança ou o esquecimento (Kofes, 2001:12).

As análises particularizadas (e até certo ponto de detalhes) privilegiadas nessa pesquisa objetivaram contribuir com o quadro de escassez de testemunhos sobre o comportamento e as atitudes de mulheres cientistas trabalhando no Brasil, no período abordado. Procurou-se usar o particular, o específico, para auxiliar a ver e compreender modelos mais amplos sobre as práticas científicas, o desenvolvimento de ideias, os papéis culturais e políticos das mulheres e das ciências.

A tese pode ser acessada pelo site da biblioteca da Unicamp, no link: http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/286621

Referências bibliográficas:

Corrêa, Mariza. Antropólogas e Antropologia. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2003.

Kofes, Suely. Uma Trajetória, Em Narrativas. Campinas – SP, Mercado das Letras, 2001.

Perrot, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Bauru, EDUSC, 2005. Tradução: Viviane Ribeiro.

[1] “Em busca pelo campo: ciências, coleções, gênero e outras histórias sobre mulheres viajantes no Brasil em meados do século XX.” Tese (Doutorado em Política Científica e Tecnológica), Unicamp, Campinas, 2014.

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