Tecnologia e experiência no universo do camming

Por Lorena Caminhas*

Os mercados do sexo – um complexo conjunto de produtos e serviços oferecidos por empresas (profissionais e amadoras) e por indivíduos, que congrega uma enorme diversidade de práticas eróticas (AGUSTÍN, 2007) – se desenvolveram, se ampliaram e se diversificaram à medida em que passaram a fazer uso de determinados dispositivos midiáticos (BERNSTEIN, 2007). Conforme os meios de comunicação se tornaram parte integrante e essencial desses mercados, eles fundamentaram e consolidaram uma série de práticas eróticas mediadas por tecnologias que passaram a ser largamente procuradas e realizadas no cotidiano.

Em meio à proliferação de serviços eróticos mediados, um ramo em específico se destaca: a atividade que promove estimulação sexual mediada por computador, que consiste na exibição de nudez e práticas eróticas (principalmente a masturbação) através de webcam – o camming.  Tal atividade é qualitativamente diferente1, na medida em que ela é condicionada e direcionada por dispositivos midiáticos: sua existência foi proporcionada, em primeiro lugar, devido ao advento e aperfeiçoamento do streaming (tecnologia que permite a distribuição de conteúdo multimídia em tempo real) aliado ao desenvolvimento da internet banda larga; em segunda instância, por efeito do aperfeiçoamento de computadores que passaram a ter hardwares e softwares compatíveis com a distribuição de streaming em alta qualidade; e por último, em decorrência do aprimoramento de câmeras de vídeo e webcams2. Além dos aspectos mais técnicos, é possível destacar os de caráter sociocultural, que correspondem à inserção e ao aumento do uso da web no cotidiano para finalidades diversas3, dentre elas o consumo de pornografia e sexo virtual4.

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Fonte: https://canaltech.com.br/curiosidades/a-importancia-do-streaming-na-evolucao-do-conteudo-erotico-46949/

As pessoas envolvidas nessa atividade são denominadas camgirls e camboys, que realizam “shows” gratuitos, semi-gratuitos ou pagos5. Apesar de haver nomenclaturas distintas para garotos e garotas, ela é exercida predominantemente por mulheres6. É oferecida majoritariamente em sites especializados7 que disponibilizam salas e perfis nos quais há uma descrição da/do profissional, o que é permitido ou proibido nos chats públicos e privados/exclusivos, fotos e vídeos (só podem ser assistidos por usuários cadastrados), e são os canais através dos quais as apresentações (públicas e/ou privadas) são realizadas.

Em minha primeira incursão nesse universo uma questão se destacou: como posicionar tal atividade em relação aos demais serviços que compõem os mercados do sexo? Se é possível reconhecer ramos como a prostituição, a pornografia, o disque-sexo, o strip-tease, etc., ainda é complexo precisar qual a posição do camming: trata-se de uma prostituição mediada por computador? Ou de um strip-tease virtual? Ou quem sabe uma nova modalidade de pornografia? A dificuldade em situar as práticas eróticas exercidas no ambiente online por camgirls fundamenta a principal disputa desenvolvida no interior dessa ocupação, cuja principal marca é a dicotomia entre fazer sexo e encenar práticas eróticas.

No interior dessa atividade as inter-relações entre tecnologias de comunicação e experiência são disputadas: seja para afirmar sua total dissociabilidade ou as possibilidades de suas conexões, o par experiência e tecnologia é constantemente acionado nesse universo, figurando no contexto da controvérsia pela própria definição dessa atividade. Em que ramo dos mercados do sexo podem ser alocados os shows eróticos realizados através de webcams? Essa questão está imersa em uma disputa composta por dois atores principais: as camgirls, que buscam se afastar da noção de sexo por meio de afirmações tais como “só faço virtual, não faço real” ou “faço strip-tease, não faço sexo” e os sites especializados que oferecem salas para as camgirls, que aludem à ideia de sexo online ou sexo virtual.

No interior da contenda destacada é possível perceber duas compreensões distintas acerca da relação entre tecnologia e experiência: a) para as camgirls, através de dispositivos tecnológicos-comunicativos não é possível haver sexo, já que a experiência sexual é considerada por elas como predominantemente presencial. Nesse sentido, as tecnologias são responsáveis por desrealizar a experiência e, portanto, não possibilitam o mesmo tipo de experimentação que a situação face-a-face; b) para os sites, a experiência proporcionada por práticas eróticas desenvolvidas através de webcam são similares ao sexo em copresença, na medida em que elas estão baseadas em uma interação camgirl/“usuário” (os dispositivos tecnológicos proporcionariam, nessa compreensão, uma experiência tão vicária quanto a que ocorre presencialmente). Certamente as duas formulações supracitadas vão aparecer nos discursos de ambos os sujeitos; entretanto, cada uma delas desponta de modo mais proeminente na voz de um ou de outro.

As disputas em torno das possibilidades ou impossibilidades de a interação estabelecida na internet proporcionar uma experiência erótica ou de sexo estão diretamente relacionadas às tentativas de alocar as práticas exercidas pelas camgirls em meio aos diversos ramos dos mercados eróticos, encontrando uma posição considerada adequada pelos sujeitos nela envolvidos. O que está em jogo nessa controvérsia é como compreender e qualificar a atividade e as camgirls, considerando que os serviços eróticos são um âmbito social severamente estigmatizado. As estratégias desenvolvidas estão em diálogo com uma possibilidade de trânsito entre as fronteiras estabelecidas nos diversos serviços eróticos mediados ou não por tecnologias. Para além de chegar a respostas conclusivas sobre como alocar o camming no interior dos mercados do sexo, é importante compreender como essa atividade se desenvolve e se amplia no contexto nacional, e como os dispositivos comunicativos condicionam e direcionam as novas possibilidades de trocas sexuais/eróticas comerciais atualmente.

Como se trata de uma investigação em pleno andamento, daqui em diante me pergunto como as práticas coincidem com os discursos propagados pelas camgirls e, caso não sejam compatíveis, como elas lidam com as contradições que surgem desse embate. Destarte, em que medida elas criam uma representação de si e de sua profissão que consiga ser sustentada em seus cotidianos. Como elas fabulam uma compreensão sobre a relação entre um serviço situado nos mercados do sexo e a possibilidade de respeito (flexibilizando marcos de reconhecimento). De que modo elas lidam com as normatividades acerca de gênero e sexualidade para construírem sua autoimagem e a apresentação de sua ocupação. E como essas normatividades estão relacionadas às fronteiras de reconhecimento. Em um universo tão recente e atual, restam mais perguntas que respostas.

Notas

As modalidades mais comuns de serviços eróticos mediados são os tele sexo e determinados tipos de pornografia (as que são produzidas especificamente para revistas, televisão e internet). Em relação à pornografia, ela já se constituía um gênero consagrado dos mercados do sexo mesmo antes do advento de dispositivos midiáticos. As transformações trazidas por essas tecnologias deslocaram modos de produção e representação nos produtos, mas não instituíram um novo serviço erótico. Já o aparecimento do telefone fixo condicionou o surgimento do tele sexo; entretanto, ele não enseja as mesmas possibilidades de trocas mediadas que a internet (somente a voz é transmitida por meio de telefone fixo, enquanto que som e imagens estão disponíveis na web).

A atividade de camming é relativamente recente: o streaming para transmissão de conteúdos audiovisuais só foi implementado em 1996, enquanto que a banda larga chegou no Brasil somente nos anos 2000. Ainda nesse momento, nenhuma das duas tecnologias tinha capacidade de difundir o conteúdo de um show erótico através de webcam. Dados acessados em: http://www.interrogacaodigital.com/central/o-que-e-streaming/ e https://www.tecmundo.com.br/banda-larga/2543-a-historia-da-conexao.htm  

A internet se popularizou no Brasil a partir do processo de inclusão digital que passou a se desenvolver a partir de 2004, quando 28 milhões de brasileiros com idade igual ou superior a 16 anos possuía acesso à rede. Dados acessados em: http://www.promosa.com.br/virtual/44752-resumo-da-historia-da-internet-no-brasil/

Para mais informações sobre acesso de pornografia e sexo na internet, ver pesquisa realizada esse ano em comemoração aos 10 anos do Pornhub (maior site de vídeos pornográficos da internet): https://www.pornhub.com/insights/10-years.

Alguns sites permitem que as camgirls e os camboys façam shows sem cobrar dos usuários um valor fechado, permitindo que elas eles solicitem presentes ou “fichas” como incentivo para realizar determinadas práticas. Em outras páginas os shows são realizados mediante o pagamento em “tokens” (moeda que é transformada em reais).

Dos três principais sites brasileiros, apenas um possui espaço para a apresentação de transexuais e homens. Ainda assim, a página principal traz somente mulheres em destaque. O público alvo são homens: nos perfis visitados (homens, mulheres e transexuais) a maior parte dos comentários são feitos por homens e a maioria dos seguidores também são homens. Além disso, é importante salientar que a maioria das garotas possui entre 18 e 35 anos.

Algumas profissionais também se apresentam via Skype.

* Lorena Caminhas é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP na linha”Estudos de Gênero” e integrante do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia (GEICT). Seus principais interesses de pesquisa se referem ao campo de Estudos de Gênero e Sexualidade e as suas intersecções com os estudos em Teorias da Comunicação.

Referências

AUGUSTÍN, L. Introduction to the cultural study of commercial sex. In: Sexualities, London, v. 10, nº 4, 2007, p. 403-407.

BERNSTEIN, E. Temporarily yours: intimacy, authenticity and the commerce of sex. London: University of Chicago Press, 2007.

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