Ciência, anti-intelectualismo e “ideologia de gênero”

por Prof. Dr. Marko Monteiro*

Muito se discute atualmente sobre uma suposta “ideologia de gênero” que estaria sendo disseminada por intelectuais e professores. Segundo os que combatem essa suposta ideologia, haveria no Brasil um projeto de uma esquerda subversiva para destruir a “família tradicional” ao disseminar a ideia de que não há homens ou mulheres e de que o gênero seria uma livre escolha. Além de fantasiosa, tal denúncia revela tendências perigosas que precisam ser identificadas e combatidas: o crescimento do anti-intelectualismo e o ataque ao pluralismo de ideias, fundamental em qualquer democracia.

A atual controvérsia sobre gênero coloca em disputa não apenas crenças em torno da família e do que seria masculino ou feminino: ela vem acompanhada de um deplorável ataque à autoridade de professores e pesquisadores; de uma busca de excluir discussões sobre gênero de escolas e universidades; ajudando assim a fortalecer posicionamentos em favor de projetos como o Escola Sem Partido, cuja justificativa se fundamenta de forma semelhantemente perigosa em acusações vagas e infundadas de que espaços de ensino e pesquisa seriam de fato locais de “doutrinação” de esquerda. O fantasma da “ideologia de gênero” é, portanto, usado como justificativa para atacar intelectuais, censurar o debate público sobre gênero e fortalecer uma opinião negativa acerca dos espaços e atores (pedagogos, professores e acadêmicos) que fazem o trabalho científico em torno do gênero e questões correlatas.

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Protesto contra a “ideologia de gênero” durante palestra de Judith Butler no Sesc Pompeia (São Paulo). FONTE: https://jornalggn.com.br/noticia/judith-butler-ensina-ideologia-de-genero-e-bruxas-nao-existem

 Defender opiniões divergentes e grupos minoritários (como homossexuais, transexuais e outros grupos estudados por acadêmicos de gênero) não é uma subversão da democracia: pelo contrário, é condição sine qua non para que ela se efetive. Não há democracia sem liberdade de opinião e de crença: e se uma minoria é calada ou atacada em sua integridade física, isso deve ser percebido em si como ataque ao ideal de uma sociedade livre e plural. Isso inclui não só minorias sexuais, mas grupos religiosos e quaisquer opiniões que divergem da maioria.

Preconceitos infundados contra pesquisadores de gênero e professores que falam sobre sexo e gênero em sala de aula são perigosos na medida em que desvalorizam o papel do professor e atacam a pesquisa com base em posições sectárias, de base religiosa ou moral. A discussão sobre gênero é feita em centros de pesquisa do mundo todo com grande rigor científico, trazendo diversos avanços não apenas na nossa compreensão sobre como se articulam aspectos sociais dos nossos corpos, mas também como esses se relacionam com violência, desigualdades e a política. Pesquisas sobre gênero e sexualidade auxiliam na formulação e aprimoramento de políticas públicas voltadas a mulheres e homens, além de grupos específicos como transexuais, travestis, adolescentes e portadores de doenças sexualmente transmissíveis.

A discussão sobre gênero e sexualidade não se restringe a grupos ou questões minoritárias, no entanto: ela ajuda a pensar formas de lidar com a gravidez, com a saúde do homem ou mesmo com o aumento de DSTs em populações as mais diversas (incluindo heterossexuais). Achar que há uma pauta oculta por trás de pesquisas tão relevantes, usar acusações infundadas para promover o medo ou mesmo atacar cientistas e profissionais em sua legitimidade é algo que devemos veementemente repudiar.

OBS: Um texto maior sobre esse tema foi publicado anteriormente em coautoria com as Profas. Fabiola Rohden e Daniela Manica, a pedido da Esocite/BR, intitulado Pela liberdade de ensinar e existir: ciências humanas contra a “ideologia de gênero”

Marko Monteiro é doutor em ciências sociais pela UNICAMP, pós-doutor pela University of Texas at Austin, atualmente é professor no Departamento de Política Científica e Tecnológica na UNICAMP e coordenador do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia – GEICT.

Referências

Imagem de capa: Protesto contra a “ideologia de gênero” no Sesc Pompeia (São Paulo) durante uma palestra de Judith Butler.
Fonte: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2017/G%C3%AAnero-pol%C3%ADtica-e-religi%C3%A3o-nos-protestos-contra-Judith-Butler

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